
O baú de madeira está marcado por sinais do tempo. A côr gasta da pintura, as farpas que teimosamente tentam soltar-se. Os autocolantes que decoram a tampa com múltiplas imagens de senhores simpáticos e de barba branca. A viagem ao sótão nas vésperas de Natal é envolvida por uma mistura de excitação e mistério. Parece sempre a primeira vez que abrimos este “cofre mágico” com o que chamamos “as coisas do Natal”…bonecos de madeiras pintados à mão com cores natalícias ganham vida no pinheiro manso que o avô colocou na sala, as bolas, de vários tamanhos e cores, reflectem os nossos sorrisos, cordões festivos e brilhantes abraçam os ramos verdes e frescos que se espreguiçam junto à lareira. Existem muitos papeis de embrulho, diferentes padrões, várias texturas, fitas largas, cartões e um conjunto de pequenos utensílios que fazem as delícias a qualquer aprendiz de bricolage.Enquanto exploro minuciosamente cada objecto….Sinto o cheiro da abóbora…e chamo por ela bem alto “Ó Vóóóóóóóó!!!!! Já estás a fazer filhooooooses?”. Ela responde; “Diz, filha…sim, estou a prepará-las…queres vir ajudar a avó?” As suas mãos são percorridas por linhas fundas que não mentem sobre a sua idade nem sobre tempos mais duros do passado. Eu nunca as vi. A minha avó adora a vida. “Velhos são os trapos”, repetia. Só sentia a alegria do seu sorriso, o aconchego dos seus olhos meigos, a energia com que sobe e desce degraus , vezes sem conta, com a mesma preserverança que hoje, o faz a minha mãe. Não há uma queixa, uma lamúria ou algo que seja capaz de toldar esta luz tão forte que chega a todos qual relâmpago de felicidade. A mesa da casa de jantar está a ficar cheia de todas as iguarias que enchem os olhos e não só. O bacalhau está a cozer…as couves tenras " lá da terra" estão a postos para a sua função. Os intervalos na cozinha são recheados de mais amor. Há tempo para uma festa no cão, regar uma planta, levar-nos à sala um pratinho com sonhos ou a partilha cúmplice com a minha mãe sobre a próxima tarefa a desempenhar. Passo os canais que são apenas 4…RTP1 e mais um “Natal dos Hospitais”. Subo o som quando chega a altura de mais um Fado… e, pára tudo. Ela entra airosa e contorna os sofás decidida. Uma colher de pau numa mão, um pano da louça noutra. “Põe mais alto filha, a avó adora isto!”…”Não há como um bom fado”. E dança, como só ela sabia .. convidando os restantes a juntarem-se ao festim improvisado. Como ela adorava um pézinho de dança. Acabavam as dores nos ossos, as pernas cansadas.Por fim, o serão vai longo e depois do jantar ( onde não chegou a sentar-se por mais de 10minutos) chega a hora de esperar pelas prendas, ou seja, a hora do crochet. Aos seus pés, um cesto com novelos vários. Mais uma manta colorida a caminho. Uma das muitas que nos aquece até hoje. É meia-noite. Os seus olhos pequenos brilham mesmo cansados e recebe o primeiro presente com emoção. “Não se pode estragar os embrulhos”, afirma. E fica horas… para abrir cada um… e aproveitar sacos, papeis , fitas e caixas que volta a colocar no baú… A minha avó adora o Natal. E tal como ela, o Natal não tem idade.
By Milene Cabral
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