Wednesday, March 2, 2011

Crónica: Pecado no Magreb


Era a 1ª vez que o Paulo viajava comigo e com os meus pais. Namorávamos há pouco tempo e passávamos a vida a passear mas apenas dentro do país, sempre ajudados por comboios e autocarros com roteiros similares aos nossos. Por vezes, também as boleias de amigos e familiares tornavam mais fácil a chegada a cada destino. Há mais de 15 anos, a nossa paixão viajante dava ainda os primeiros passos. Mas daquela vez tudo seria diferente: íamos de avião e não só atravessávamos a fronteira como chegávamos a outro continente. Sabíamos que a cultura era distinta e a palavra “muçulmano” soava exótica, proibida mas estávamos longe de compreender o seu alcance religioso ou social.

O entusiasmo transbordava nos nossos sorrisos constantes e na cúmplice partilha de uma nova experiência. Estávamos sôfregos em absorver tudo. As pessoas, as roupas , as cores, os cafés cheios de homens, as ruas desordenadas, as casas desencontradas. Por fim, a Mesquita Hassan II , impondo-se à linha do horizonte. Nunca tínhamos visto nada assim: a mesquita era enorme. Ficámos horas, entrando e saindo para ver cada pedaço deste puzzle de luxo com varanda para o mar. O contraste com tudo o que já tínhamos visto em Casablanca era gigante.

Desde o minarete mais alto do mundo às salas de orações separadas passando pela importância do hijab, parecia que já sabíamos tudo. Imbuídos de espírito doutrinário e insistentemente pregador, repetíamos, vezes sem conta, todas as palavras árabes aprendidas. Mas entenderíamos o seu significado?

As roupas colavam e o calor pintava as nossas faces já iluminadas pelo suor. Tínhamos que descansar. Amantes da praia e do mar, procurámos o areal mais próximo banhado pelas águas quentes de um Atlântico que namora África. Ao longe, avistávamos a Mesquita que parecia flutuar no Oceano. As ondas correm, sobrepõem-se, cheias de espuma num convite descarado à diversão.Não reparo nas pessoas na praia mas apercebo-me de que são poucas. É Setembro, está um calor terrível e estou histérica por ter esta Costa da Caparica a 28 graus, só para mim.

Dispo-me em segundos com a mesma alegria inocente que ainda hoje o faço na chegada a qualquer praia. Dou pulos, corro todo o areal e salto qual golfinho uma e outra vez nas ondas marroquinas. Nem se quer penso, nem se quer me lembro, que estou praticamente nua. Procuro leveza e liberdade. Diante de olhos alheios, sou libertina e leviana. A inconsciência é infantil. Mas as formas do meu corpo não. Regresso em passo lento à toalha. Continuo cega para o mundo à minha volta.

Aproxima-se, silenciosamente, um homem alto. A sua pele é de sépia, a pele morena da África Branca e está fardado com as cores da autoridade. Supreende-nos com palavras em francês. No 1º momento não estamos a compreender. Apenas sentimos a tensão dos seus músculos, a voz firme e a dureza no olhar. Algo se passa. A minha mãe ( a única a dominar com fluência a língua) é a primeira a descodificar a mensagem e diz-me aos berros “Veste-te depressa!”. Mais do que abrir finalmente os olhos, tenho-os arregalados. Tremo e o coração dispara. A isto deve chamar-se medo. Mas não só. Como pude ser tão estúpida? Sinto-me tão pequena. A minha mãe, no seu melhor francês continua a pedir perdão de forma submissa e argumenta com a ignorância sobre religião ou leis. Nem mesmo nos “brandos costumes lusos” o desconhecimento dá permissão ao incumprimento.O homem fardado repete o mesmo discurso sobre a afronta à tradição, à modéstia e sobriedade muçulmana, como ousámos este comportamento numa das praias escolhidas pelos fieis para falar com Alá? Agarra-me por um braço e puxa-me com forte intenção de me levar ao estabelecimento policial mais próximo, apontando para uma casa pequena e degradada a uns metros dali. O Paulo não sabia o que dizer e olhava solidário para a minha t-shirt vestida do avesso e o meu cabelo desgrenhado cheio de sal. A minha mãe continuava a metralhar francês como eu nunca imaginei que ela soubesse. É nesse momento que o meu pai intervém com a experiência de uma vida, a negociação de um comercial, as artimanhas de um vendedor. Em poucos minutos, a tensão dissipa-se e, a troco de meia dúzia de dirhams, pouco mais do que alguns cafés, o homem fardado deseja-nos a continuação de boas férias, alerta prudência para uma próxima vez e vira costas continuando caminho pela praia.

Respiro de alívio. Aprendi a lição. Ser livre não é impôr-nos aos outros, fora ou dentro da sua casa. O respeito e a tolerância sobrevivem na convivência pacífica de valores, crenças, cores. Essa é a verdadeira liberdade. E ela não tem preço. Ou será que custa apenas alguns dirhams?

by Milene Cabral, Nov 2010

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