
Pouco sabia sobre Malta. Tinha ouvido comentários vagos, hesitantes sobre esta ilha do Mediterrâneo. Conduz-se pela esquerda, fala-se uma língua estranha e não está inundada de zonas balneares turísticas preparadas e arranjadas para “inglês” ver. Sim, é verdade. Malta é diferentes das suas vizinhas que salpicam este mar de festa e areais brancos. Mas tem, certamente, muito mais para contar do que peles bronzeadas e noites de arromba até o sol raiar. A História vive em Malta como um livro aberto com páginas de diferentes cores, formatos ou espessuras. É como um cenário de filme mas onde vários realizadores participam e deixam uma marca profunda, visível até hoje na sua personalidade singular.Malta não é óbvia, banal ou forçada, tornando-a ainda mais interessante a cada dia de descoberta. As suas cidades são genuínas e mantêm o carácter firme de quem não cede facilmente aos caprichos do turista mais insistente.
Está calor. Um calor dos diabos. Deixo o meu hotel em Bugibba bem juntinho ao mar e parto em direcção ao terminal de autocarros. Ouvi dizer que o “bus” por aqui nos leva a todo o lado e de uma forma especial. Não me enganaram. Seria uma experiência a repetir durante todos os dias da minha estadia. Quem resiste a estes “charutos” pintados de amarelo e laranja já de meia-idade, que parecem ser tirados de um museu ? Ar condicionado? Não. Nada disso.Portas abertas. Ou melhor, escancaradas durante toda a nossa viagem tornando mais respirável os 35 graus, secos e abafados deste Setembro mediterrânico. Os condutores são mecânicos de 1ª classe, aptos a reparar cada mania destas relíquias vintage que dão vida a este cenário de pedra amarela que cobre a ilha. A condução “ao contrário” provoca sempre alguma ansiedade mas em Malta esse, é sem dúvida, o menor dos problemas…falar ao telemóvel durante toda a viagem é algo comum para os condutores malteses. Tal como enviar sms, comer, ou falar animadamente com algum passageiro habitual, virando-se várias vezes para trás enquanto o bus, como que ensinado, continua a serpentear as estradas do litoral ou chega a mais uma cidade milenar como Mdina, Rabat ou Mosta. Se é assustador?Claro! Já não basta estarmos sempre convencidos que vamos bater de frente a qualquer instante? Mas, rapidamente nos habituamos a esta viagem alucinante mas “very typical” nas ruas de Malta. Aliás, também não temos outra hipótese. Não há qualquer esforço para amenizar a realidade para o turista. Mas não ficamos por aqui…estes autocarros são autênticas obras de arte, expressão única da personalidade dos seus condutores, suas casas, seus companheiros. Guardam aqui as recordações, memórias, superstições. Santos pendurados, Cristos Crucificados baloiçam no espelho retrovisor. Emblemas futebolísticos e fotos de família forram as laterais. A manutenção ao longo dos anos por parte dos seus proprietários confere um grau de customização elevado. Os detalhes decorativos são diversos mas sempre ímpares. Desenhos , pinturas, figuras, flores…tornam cada um destes veículos, manifestações exclusivas da imagem, da vida em Malta. Da monumental La Valetta até à animação de Sliema ou Julian´s Bay ou de Bugibba ao mercado de peixe de Marsaxlokk passando pelas praias de Melieha ou Golden Bay…não há local onde não passe este genuíno maltês de cadeiras de couro. Velho? Não. Vintage.
By Milene Cabral, Mar 2011






