Sunday, April 3, 2011

O verdadeiro Maltês...


Pouco sabia sobre Malta. Tinha ouvido comentários vagos, hesitantes sobre esta ilha do Mediterrâneo. Conduz-se pela esquerda, fala-se uma língua estranha e não está inundada de zonas balneares turísticas preparadas e arranjadas para “inglês” ver. Sim, é verdade. Malta é diferentes das suas vizinhas que salpicam este mar de festa e areais brancos. Mas tem, certamente, muito mais para contar do que peles bronzeadas e noites de arromba até o sol raiar. A História vive em Malta como um livro aberto com páginas de diferentes cores, formatos ou espessuras. É como um cenário de filme mas onde vários realizadores participam e deixam uma marca profunda, visível até hoje na sua personalidade singular.Malta não é óbvia, banal ou forçada, tornando-a ainda mais interessante a cada dia de descoberta. As suas cidades são genuínas e mantêm o carácter firme de quem não cede facilmente aos caprichos do turista mais insistente.



Está calor. Um calor dos diabos. Deixo o meu hotel em Bugibba bem juntinho ao mar e parto em direcção ao terminal de autocarros. Ouvi dizer que o “bus” por aqui nos leva a todo o lado e de uma forma especial. Não me enganaram. Seria uma experiência a repetir durante todos os dias da minha estadia. Quem resiste a estes “charutos” pintados de amarelo e laranja já de meia-idade, que parecem ser tirados de um museu ? Ar condicionado? Não. Nada disso.Portas abertas. Ou melhor, escancaradas durante toda a nossa viagem tornando mais respirável os 35 graus, secos e abafados deste Setembro mediterrânico. Os condutores são mecânicos de 1ª classe, aptos a reparar cada mania destas relíquias vintage que dão vida a este cenário de pedra amarela que cobre a ilha. A condução “ao contrário” provoca sempre alguma ansiedade mas em Malta esse, é sem dúvida, o menor dos problemas…falar ao telemóvel durante toda a viagem é algo comum para os condutores malteses. Tal como enviar sms, comer, ou falar animadamente com algum passageiro habitual, virando-se várias vezes para trás enquanto o bus, como que ensinado, continua a serpentear as estradas do litoral ou chega a mais uma cidade milenar como Mdina, Rabat ou Mosta. Se é assustador?Claro! Já não basta estarmos sempre convencidos que vamos bater de frente a qualquer instante? Mas, rapidamente nos habituamos a esta viagem alucinante mas “very typical” nas ruas de Malta. Aliás, também não temos outra hipótese. Não há qualquer esforço para amenizar a realidade para o turista. Mas não ficamos por aqui…estes autocarros são autênticas obras de arte, expressão única da personalidade dos seus condutores, suas casas, seus companheiros. Guardam aqui as recordações, memórias, superstições. Santos pendurados, Cristos Crucificados baloiçam no espelho retrovisor. Emblemas futebolísticos e fotos de família forram as laterais. A manutenção ao longo dos anos por parte dos seus proprietários confere um grau de customização elevado. Os detalhes decorativos são diversos mas sempre ímpares. Desenhos , pinturas, figuras, flores…tornam cada um destes veículos, manifestações exclusivas da imagem, da vida em Malta. Da monumental La Valetta até à animação de Sliema ou Julian´s Bay ou de Bugibba ao mercado de peixe de Marsaxlokk passando pelas praias de Melieha ou Golden Bay…não há local onde não passe este genuíno maltês de cadeiras de couro. Velho? Não. Vintage.



By Milene Cabral, Mar 2011

Monday, March 28, 2011

Escócia: um roteiro pelas highlands



Foi mais uma viagem fantástica e que correu muito bem a todos os níveis. Tenho não só a realçar as paisagens fantásticas da Escócia como a simpatia e hospitalidade dos Escoceses, sem dúvida, uma das viagens onde me senti mais “welcome”! Eles são mesmo incríveis ( com ou sem saias, ahahahahaha!).


Foram 4 dias de carro pelas Highlands logo à chegada e depois 3 últimas noites em Edimburgo, uma cidade diferente, com uma atmosfera única.



1º dia: STIRLING: (CASTELO DE STIRLING, WALLACE MONUMENT, OLD BRIDGE)



Chegámos a Stirling por volta das 16.30 , foi a estreia da condução à esquerda mas que correu MUITO BEM.
Ficámos no NeidPath B&B onde experimentámos logo na manhã seguinte um “full scottish breakfast”...com tomates, cogumelos, ovos, bacon, salsichas e haggis ( comida tradicional de miúdos de carneiro com papa de aveia e especiarias....enfim, PALAVRAS PARA QUÊ?...injecção de colesterol e calorias!!!




Quis que esta fosse a 1ª paragem porque é a terra de William Wallace ( lembram-se do Braveheart?) pois que este é mesmo o Braveheart real! este herói escocês do séc XIII que derrotou as tropas inglesas na FAMOSA “batalha da ponte de Stirling”...também num fatídico 11Set...de 1297....na OLD BRIDGE é realmente um herói nacional! A grande homenagem é feita no WALLACE MONUMENT( numa das montanhas da cidade de Stirling )






O CASTELO DE STIRLING –


foi a nossa primeira visita e vale bem a pena 2h dedicadas a este Castelo ( que será apenas o 1º de muitos ao longo da viagem) – um dos castelos mais importantes da Escócia situado mesmo no coração da “old town” de Stirling. Acredita-se ter sido construído algures no sec. XII e é parte integrante da história de resistência dos escoceses à ocupação inglesa ( William Wallace and Robert the Bruce) e também ligado a Mary, Queen of Scots...






2º dia: HIGHLANDS: de Stirling a Fort William - I


Um dos dias mais bonitos da viagem: em plenas Highlands , atravessando o Parque Nacional das Trossachs, o Queen Elizabeth Forest Park com inúmeros lochs ( lagos) lindíssimos como o Loch Ard, Katrine, Lomond...e vilas lindas como Balloch,Aberfoyle, Stronachlachar, Callander).....ADOOREI!!!! Pelo caminho...eram só montanhas e vales verdinhos com muitas ovelhas, vaquinhas cabeludas...as vacas charmosas das Highlands, e até gansos “a pastar”!!!!!






2º dia: HIGHLANDS: de Stirling a Fort William - II


Neste dia...avançámos para norte...e passámos nas Falls of Dochart junto ao rio Dochart....fomos para litoral até Oban, a capital do Marisco da Escócia, e ainda antes de chegar a Fort William tivemos oportunidade de ver o Kilchurn Castle...no Loch Awe....um magnífico castelo ( hoje já em ruínas) do sec XV.
A chegada a Fort William foi com chuva...mas compensada pelo tão acolhedor B&B “St.Anthonys”, o melhor de toda a viagem com uma vista magnífica sobre o Loch Linhe...





3º DIA - PARTE 1: "Road to Isles", Glenfinnam, Comboio a Vapor, Morar.. Ferry to Skye Island....


Um dos dias mais longos desta “roadtrip” nas Highlands!


1) Acordamos em Fort William com aquela vista magnífica...e vamos percorrer a “Road to Isles”, uma estrada panorâmica fantástica entre Fort William e Mallaig ( local onde apanhamos o ferry para a Ilha Skye) – é considerada uma das estradas mais bonitas por ir sempre à beira dos lagos e com paisagens lindas. É igualmente o percurso do famoso comboio a vapor Jacobita, é o comboio do Harry Potter!!! Sabíamos a hora da partida e conseguimos não apenas tirar fotos como acompanhar todo o percurso e chegarmos a Mallaig praticamente ao mesmo tempo! Este comboio é mesmo de filme!!!....conseguimos apanhar o “Hogwarts Express” a atravessar o famoso viaduto de Glenfinnam...tal como surgiu no filme do Harry POTTER!Magnífico!







2) Glenfinnam junto ao Loch Shiel em plena “Road to the Isles” onde foi erigido o Glenfinnam Monument ( em homenagem ao Bonnie Prince Charlie)






3) Antes de chegarmos a Mallaig ( porto para apanhar ferry) passámos por Morar...e por belíssimas praias de areia branca...quem diria,hein? ( não, não dei nenhum mergulho!)



depois fomos para a ilha SKYE ......



3ºDIA - PARTE 2 : ILHA SKYE/EILEAN DONAN CASTLE/CHEGADA FORT AUGUSTUS(LOCH NESS)


1) ILHA SKYE: As 13.45 apanhámos o ferry…para a Ilha Skye, na costa ocidental da Escócia , a maior e mais conhecida das “Hébridas Interiores” como é chamado o grupo de ilhas. É conhecida pela beleza natural, história e vida selvagem. Se tivessemos mais tempo poderíamos ter mais tempo para observação de aves, etc… As Cuillins Hills, o castelo Dunveagan ( do clan Mcleod!) o porto de Portree e muitas das suas paisagens bucólicas...tivemos oportunidade de ver! É, contudo uma ilha que merece pelo menos 2 dias para ser visitada a sério!!! Está muito presente a cultura e herança gaélica e as tabuletas estão em ambas as línguas...








2) EILEAN DONAN CASTLE: Logo à saída da Ilha pela ponte que a une ao Continente....fomos até Loch Duich ver um dos castelos mais famosos , Eilean Donan Castle





3) FORT AUGUSTUS/ LOCH NESS: Chegada a Fort Augustus, na margem do Loch Ness e ao igualmente simpático Caledonian Hotel...ainda demos uma volta na simpática vila!






E no caminho...também encontrámos uns cavalinhos todos fashion...com um corte de cabelo....muito à frente!









4ºDIA: O famoso Uruquart Castle no Loch Ness....O Blair Castle....QUEEN´S VIEW






5ºDIA: a pitoresca PILTCHORY ( Edradour Distillery) ; GLAMIS CASTLE





Depois de um pequeno almoço fantástico no nosso B&B em Piltchory ....fomos finalmente visitar uma Destilaria de Whisky, “The Smallest Distillery in Scotland” – EDRADOUR...uma produção quase familiar e por isso muito exclusiva e cara!!!


Antes de chegarmos a Edimburgo...a paragem obrigatória no Glamis Castle....lindo, lindo, lindo...dos castelos mais lindos que visitámos por dentro e por fora...pena não deixarem tirar fotos dentro porque as salas são todas fantásticas, muito ricas e decoradas e ainda em pleno uso. Foi o castelo onde a rainha mãe passou a infância e está cheio de histórias antigas e actuais ligadas a vários elementos da família real, recepções de Estado, etc..







Sunday, March 27, 2011

Bosque Encantado



O País Basco é uma nação sem fronteiras definidas mas com muito mais para oferecer que personagens revolucionárias em filmes de cinema ou noticiários de jornal. Desde Bilbao a Hondarribia passando por San Sebastian, seriam precisas muitas páginas para descrever tradições, costumes e inovações, enraizadas na alma basca, bem juntinho ao mar.

Mas não. Não vou por aí. Existe um segredo ainda mais bem guardado no País Basco, mais concretamente no coração da reserva da Biosfera de Urdaibai, património da Unesco.Já chego lá. Continuando…Os nomes são estranhos e difícieis de interiorizar. Olhamos para as placas na estrada, apontamos no mapa, abrimos mais uma vez o guia. E, voilá…”qual era a palavra mesmo?”.


Percorríamos a costa basca impressionados com a beleza das vilas piscatórias coloridas e abraçadas por montanhas verdes. Sempre deslumbrados pela fauna e flora que nos envolvia nesta zona, passámos por Bermeo com a sua marina de pesca cheia de barcos de cores berrantes. Fomos a Mundaka, uma das praias mais procuradas por surfistas de todo o mundo pelas lendárias esquerdas que rolam perfeitas até à areia, num paisagem idílica por entre a vegetação. Mas mais surpresas estavam para vir: mesmo em pleno estuário que dá forma à reserva de Urdaibai, onde o mar Cantábrico se une ao rio Oca para desenharem com esmero cada recanto na Natureza. Seguimos pela estrada que une as povoações de Guernika e Arteaga e já próximos de Kortzubi, desviamos novamente entrando pelo bosque denso. Tinha chovido na véspera e as terras estão moles e lamacentas. Arriscámos com o carro mais uns metros mas fomos forçados a parar com o risco de ficarmos atolados. Estacionámos numa clareira da floresta. Não se vê ninguém. Existem umas setas de madeira colocadas numas árvores que parecem indicar um caminho. Vamos a pé, enterrando botas e calças naquilo que parece, no mínimo, um caminho pouco seguro. Mas a curiosidade é maior que o receio. O sol brilha hoje por isso temos que aproveitar. Depois de 30 minutos a pé, chegámos. Boca aberta, espanto, sem palavras.Estamos no Bosque Pintado de OMA e sinto-me a Alice no País das Maravilhas a descobrir um mundo novo, mágico, surreal. Numa extensão que os nossos olhos não conseguem delimitar, árvores e árvores de perder de vista, pinheiros na sua maioria, têm os seus troncos pintados com cores alegres de figuras humanas, animais, traços geométricos. Corro de um lado para o outro por entre o arvoredo e olho em diferentes direcções existem desenhos que se completam como um puzzle desde que observados em determinada perspectiva. Como se cada tronco, cada ramo tivesse um papel a desempenhar neste teatro improvisado cheio de segredos para dar. Augustín Ibarrola, pintor e escultor espanhol, conhecido pela sua pintura carregada de símbolos e valores sociais na defesa do povo basco, é o autor deste quadro onde a Natureza é a sua tela. Inspirado pela obra do dramaturgo Pedro Villora, Electra en OMA, Ibarrola dá largas à imaginação e ao talento proporcionando uma experiência única e arrebatadora. Dá-nos a liberdade de ser parte desse pincel, de ser mais uma cor, um traço, um actor. De entrarmos na sua inspiração, de ser só coração, de voltar a ser crianças, neste Bosque Encantado.

Fome Cega

Com as cortinas entreabertas apenas por alguns segundos, uma senhora baixa e roliça agarra-nos pela mão e fala-nos com voz de mel. Mantenho os olhos muito abertos, mas em vão. Está escuro que nem breu, não adivinho nenhum contorno, seja da pessoa à minha frente ou da que me segue. Perdi completamente a noção do espaço.Damos risadas nervosas enquanto seguimos em fila indiana a voz doce que nos orienta.Ela é a nossa bússola, a nossa referência, a única presença que os nossos sentidos baralhados identificam. Perguntou todos os nossos nomes e chamáva-nos por eles, dando mais confiança e familiaridade a esta relação que nascia deste manto negro. À medida que nos sentávamos, por ordem, à volta de uma mesa invisível, compreendíamos o desafio que tínhamos pela frente: como apurar tantas outras capacidades relegadas para 2º plano sempre que se impunha a liderança déspota do olhar?

Esta era sem dúvida uma viagem única para todos: Sabores, formas, texturas, aromas ganharam toda a importância. Mas foi mais do que isso. Conhecermo-nos melhor sem nada ver. As nossas roupas ou maquilhagem pouco interessavam e cheguei mesmo a pensar no ridículo de ter perdido mais de 10 minutos com rimmel, risco ,batom e ainda umas quantas escovadelas no cabelo. Os modos mais ou menos educados de sentar, comer ou agarrar nos talheres… de nada valiam neste convívio. Esta tertúlia era vivida com palavras, risadas e uma partilha literalmente cega da mesma fragilidade, do mesmo desafio.

Imaginava a D. Ana, a senhora da voz doce, a serpentear pelo espaço com naturalidade e firmeza. Os seus movimentos pareciam leves e de uma destreza ímpar. Punha e tirava pratos e copos da mesa, dispostos de forma cuidada e harmoniosa, sem sequer hesitar. D. Ana via com o coração.Sussurrava-nos quase que ao ouvido cada nova etapa desta degustação “às escuras” e o paladar curioso testava, interrogava, provava na tentativa de acertar no que os nossos olhos normalmente dão como certo.

Estava com fome. Aliás, como sempre, estava mesmo esganada de fome. Agarrei com as 2 mãos na 1ª taça que encontrei à minha frente e devorei todos os pedaços de pão que nela se encontravam enquanto os meus colegas ainda tacteavam as peças de louça ao seu redor.Senti-me envergonhada mas sorri e agradeci à escuridão ter disfarçado a minha habitual atitude sôfrega, aliás, habitualmente alvo de censuras: “Não esperas pelos outros, Milene?”. “Come mais devagar que te faz mal!”. “ A comida não foge, escusas de comer tudo de uma vez”. Ainda hoje oiço isto vezes sem fim da minha mãe, dos meus amigos. “Caraças, pá. Estou cheia de fome e quero comer,posso?”Passo muitas vezes por mal educada …quando só tenho é uma fome dos diabos! E, claro…uma dose generosa de impaciência.Pronto. Já passou. Acalmei o estômago e dou tempo para que os sentidos voltem de novo alertas. Contam-se histórias, sentimentos , preferências, dúvidas, segredos. Alguns com a rebeldia e irreverência de uma adolescência ainda próxima, outros com a timidez e inocência de outrora mas sempre com humor e verdade. Também oiço o silêncio da poeta. Está escuro mas imagino-a de olhos fechados para sentir com a alma o que nos irá contar com arte.

Os copos estão gelados.Cheios de sangria de champagne , leve e fresca que é substituída rapidamente por D. Ana, sempre por perto. Pouparam-nos a tragédia de termos que ser nós a servir os copos….mas fazer um brinde é já uma tarefa dantesca! E movimentamos no ar o nosso copo na esperança de outro vir ao seu encontro. E é aí que se ouvem sons estridentes. Por pouco não partem. Não medimos distâncias, forças e direcções. Mais gargalhadas.

Sinto entre os dedos as formas de 3 copos, tamanhos irregulares, diferentes temperaturas. Bebo o primeiro. É divinal, cremoso, intenso. Mas sinto a falta de uma colher. Inclino o copo e acho que já estou a beber pelo nariz. “Creme de Cogumelos”, alguém avança.Muito bom. Passo ao 2º, parece-me legumes. É mais insípido e sem o acabar vou directo ao 3º. Sim, é o meu favorito. Adoro gaspacho. O sabor do tomate, a acidez do pepino, os sabores de salada fria que lembra o verão. Mais um gole de sangria gelada. “Abóbora com laranja?” Hum…não chegava lá. Tento de novo e volto ao copo do meio acabando-o de novo no nariz…mas já é o meu cérebro a orientar o paladar. Não chegava mesmo lá.

A fluidez da conversa aumenta com as rodadas da sangria assim como a vontade de provar mais. D. Ana regressa com mais um tabuleiro, desta vez com 3 taças. “Uma delas podem comer com a colher e as outras à mão”. Vou logo espetar os dedos no meio de uma taça cheia de arroz! Pronto. Voltou a sôfrega. Colher? Onde raio está a colher? Fixe. Está aqui. E começo a comer o arroz. Mais uma aventura: acertar com a colher na taça, levar a colher cheia sem deixar cair o arroz, acertar na minha boca.Ó vidinha, isto cansa. So à 10ª colherada ganho alguma prática . Delicio-me com a romã, passas e nozes entre bagos de arroz. Viajo para lugares longínquos com esta mistura exótica. Atiro-me ao folhado e logo de seguida a uma tortilha meio esponjosa com sabor a espargos. “Mais sangria, por favor.”

Continuamos a descobrir vizinhanças e afinidades. A escuridão revela-se confidente. Quando chegam os doces, dou a mim mesma tempo e provo lentamente cada um deles com a paciência de quem já aprendeu a lição: não é apenas o prazer dos sabores que se torna mais sublime com todos os sentidos. São todos os momentos da nossa vida

Thursday, March 3, 2011

English Breakfast

“Não quero ir embora!”

Ainda dormiam os galos de Portugal e as ovelhas da vizinha Gales, quando decidi virar costas e mochila ao luxuoso bairro de Edgbaston, em Birmingham. “Hoje vou conhecer Londres!”
Backpacker por um dia, escolhi o melhor transporte possível para uma aventura de deslumbramento até Londres: o comboio regional do pára-arranca em estações, apeadeiros e afins. Assim que fui descarregada na Marylebone Station os sentidos paralisaram diante das rosas de todas as cores que se arrumavam geometricamente nas bancas, como no Queens’ Garden do Regents’ Park. Estaria eu na Londres dos livros? Onde estavam o cinzento e o frio com que a mesma é caracterizada?
Tive sorte. Era Junho, e o céu britânico aparecia pintado de um ciano, que a Rute me conta não se ter repetido até hoje. Esse último “Verão decente”, como ela diz, foi aquele em que descobri uma Londres com todas as cores do arco-íris. A cúpula do Madame Tussauds’ é verde; as lojas de souvenirs da Oxford Street vendem chapéus de Sol; e o Hyde Park vira praia algarvia em tarde de Agosto, com amontoados de yes men engravatados e adolescentes semi-nuas expostos como lagartixas. Muitos e muitos turistas regressam aos seus países sem o privilégio de descobrir estas particularidades londrinas. Eu, comprei um bilhete premiado naquela estação de comboio em Birmingham!
Horário laboral cumprido nesse início de carreira de nómada, e tanto eu como o Sol não queríamos abandonar Londres. Tinha andado por muitas zonas da cidade, visitado imensos monumentos, fotografado tantas indumentárias futuristas … mas as horas não pareciam ter passado por mim. Ainda havia um mundo por descobrir. Sentia-me leve e cheia de energia. A carteira acompanhava a minha leveza, com as 30 libras que restavam. E o Visa? … ah, esse tinha ficado prometido a Fátima, pois os pecados já tinham sido muitos nos 4 meses de vida académica em Birmingham.

O Sol brincava às escondidas atrás do Big Ben e eu decidi: “Não quero ir embora!”

É então, que no reino dos protestantes, sou assolada pelos pensamentos menos católicos: “E se eu arranjasse um sítio onde dormir a custo zero?”; “E se fosse para o aeroporto?”; “E se inventasse que me tinham roubado?” ... Uma bíblia nada sagrada, onde cada pensamento que me surgia era uma passagem mais pecaminosa que a última. Shame on you Ana!
Mas quem disse que eu sou a santinha que aparentava a essa data? Quando o negava, ninguém acreditava. Então … resolvi que no regresso teria de provocar uns sonoros e adequados “Oh my God!”, para que acreditassem de vez, que aqui há lobo escondido em pele de cordeiro.

Waterloo Station

Emblema histórico que muitos visitam para relembrar os viajantes que partiam em missão militar, e em que escritores como Emily Grayson (autora do romance Waterloo Station) foram buscar inspiração para descrever a dor das muitas mulheres que ali beijavam pela última vez os seus companheiros. Esta estação, que numa pequena mancha de tempo permite a empresários e turistas passar de Londres a Paris, foi a premiada na minha selecção disfarçadamente racional do local perfeito para dormir (sem pagar).
Decisão tomada, aproveitei a noite londrina dos clubs e dos artistas de rua, até me fazer ao caminho. A escolha menos dispendiosa em tempo e dinheiro, uma vez que o trajecto foi feito a pé pela Tower Bridge e pela espelhada margem do Thames.
“Local perfeito”, foi o suspiro à entrada na estação. Dezenas de backpackers em topo de carreira dormitavam ou jogavam cartas nos bancos da cafetaria. “Eu, sou só mais uma”, foi o pensamento até à chamada para o último Eurostar do dia, altura em que todos partiram em manada, e só eu fiquei esquecida. “E agora?”, pensei a cada varridela que a empregada da cafetaria dava nas minhas botas cansadas. Fui empatar tempo aos toilets, abençoei o hábito de estagiária de enfermagem que carrega o necessaire como se do B.I. se tratasse, escolhi a roupinha para o dia seguinte (camisola de dentro passa para fora, vice-versa, a cuequinha S.O.S., e está o assunto arrumado!) … “chichi e banco”! Silêncio era coisa que não calculei existir num local como aquele, mas a verdade é que à 01h00 consegui ouvir o zumbido de um ou dois mosquitos antes de adormecer como um feto aconchegado num útero de ganga (blusão de ganga que parecera tão inútil debaixo do Sol radiante do dia, e que se revelara tão importante umas horas depois).
“Hi sweetie! Do you need any help?”
“Estou a sonhar?”, “Onde estou?”, “O que é que se passa?”
Um segurança da estação aguardava com um sorriso simpático uma resposta minha. “Ai Deus, só passaram 15 minutos … ele já me devia ter visto. Não posso dizer que perdi o comboio para Paris.”
“I missed the last train to Birmingham at Marylebone … I’m a student … I’m here alone … I have no money to pay a B&B …”
“Oh dear! You’re safe here! If I wasn’t here all night, I’d offer you my place. You can sleep, that I’ll tell my guys to look after you! Do you want a hot drink? I’ll bring you some blankets!”
Definitivamente, isto parecia sonho. Aquecida por um chá com leite e por dois cobertores felpudos, dormi que nem anjo, sem sequer me aperceber do movimento que às 07h30m já agitava aquela estação.
O aroma inconfundível de um café quente e uma voz já familiar:
“Good morning sweetie! I brought you breakfast!”
“Isto não pode ser verdade!”, pensei. Pete, um inglês com um sorriso rasgado, que me ofereceu cobertores, chá, vigilância nocturna … e ainda me levou o pequeno-almoço à cama/ao banco. Demorei a acreditar que a bagel de sementes com queijo e presunto era palpável. Mas era tudo verdade! Até o facto de ter sido vigiada por 4 câmaras estrategicamente colocadas em ângulos diferentes.
Demorei-me nos cuidados matinais no W.C. dos funcionários, conheci mais dois dos vigilantes que me protegeram toda a noite e ainda tive a simpática companhia do Pete até à London Tower (primeira paragem de mais um longo dia de turismo).


“Já que eles também trabalham por turnos rotativos … se isto hoje correr bem … vou mas é comprar uns trapinhos para vestir amanhã.”
Eram os meus últimos dias por terras britânicas. Não saberia se, nem quando voltava. E foi em Londres que passei os 3 dias e 2 noites mais marcantes de uma carreira de backpacker que agora já tem mais calos.
Ainda hoje, arrepio-me a cada vez que oiço clichés vindos das entranhas cobardes de quem ainda nem arriscou pisar o solo de sua Majestade, para sequer poder falar do seu povo: “Ah, os ingleses são frios e hostis!”, “Aquilo é demasiado cinzento para meu gosto.”, “São um povo pouco acolhedor.” …

Em quatro meses e meio de vida “à inglesa”, muito chorei pelo bacalhau com natas da mãezinha. Porém, assim que me soltei dos abraços adelgaçantes da família, dormi como uma criança e sonhei que me acordavam com um English Breakfast.

By: Pérola (Ana Luísa Cruz) - Março/2010